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Pitacos #01 – O “Design” em “Game Design”

Olá! Hoje estou começando uma nova coluna no blog que não vai ter periodicidade definida, nem um foco definido, a “Pitacos”. Aqui vai ser o lugar de análises mais longas e algumas opiniões sobre o mercado de jogos de tabuleiro no Brasil e no mundo, sobre como eu encaro o design de jogos e sobre qualquer assunto off-topic que seja relacionado ao hobby. Vamos então começar.

Bom, como os ouvintes do podcast já sabem, eu sou editor da Geeks N’ Orcs e também designer de jogos. Meu primeiro jogo criado foi o Appalachian, um jogo que não foi publicado, mas tratava do período da lei seca nos EUA, onde cada jogador deveria gerenciar uma fábrica clandestina de bebidas alcoólicas. Era um euro médio, cheio de erros, que depois de 2 anos, aproximadamente, eu peguei tudo o que havia feito e joguei diretamente na lata de lixo. O meu segundo jogo, Jackpot, era uma corrida de Duendes em busca do pote de ouro no final do arco-íris. Depois de 1 ano e meio de playtestes, o jogo é legal, mas não é o que deveria ser. Ele se tornou um jogo “Family ++”, que significa que está quase na categoria gamer, mas com um tema família e um visual família. Nenhum desses jogos viu a luz do dia. O Appalachian nunca verá e o Jackpot precisa passar por uma grande adequação para que possa ser publicado. Coisas da vida.

Appalachian (e) e Jackpot (d). O primeiro foi para o lixo, o segundo está parado e com pouca perspectiva de mudança.

Depois desses 2 primeiros jogos eu fiz mais alguns. Piratas!, Elíseos, Craft Rangers, Iron Duel, Kingdom Roll e Fight!. Alguns destes estão finalizados, outros não devem ir muito para frente e outros estão em desenvolvimento. Talvez você até conheça alguns, certo? Em suma, tem 2 anos e meio que eu trabalho oficialmente criando e desenvolvendo jogos (2 processos diferentes) e é sobre a função do criador de jogos que eu quero falar hoje.

As duas edições publicadas do Piratas!

Dentro do nosso nicho, como são conhecidos os criadores de jogos? Parece uma pergunta estranha, mas é que eu quero provocar a resposta óbvia e que você vai hesitar em responder de cara, mas é a resposta certa. O criador de jogos é conhecido como “Game Designer”. Você já se perguntou porque disso? Será que é pelo mesmo motivo que existe “Designer de Sobrancelha”?

O conceito de design não é definido por unanimidade.Se você pesquisar agora no Google ele vai te retornar o seguinte:

Pra gente essa primeira definição já basta. “A concepção de um produto (máquina, utensílio, mobiliário, embalagem, publicação etc.) esp. no que se refere à sua forma física e funcionalidade”. Essa última palavra é a mais importante para nós:  FUNCIONALIDADE. Um(a) designer de sobrancelhas não se importa com funcionalidade, ela apenas se importa com a forma, a estética, portanto, o que ela faz não é design. Já o Game Designer, está preocupado com a funcionalidade e a forma da sua criação, portanto, o que ele faz é, de fato, DESIGN.

Então, se o que o Designer de Jogos faz é DESIGN, porque nós não utilizamos conceitos e conhecimentos de outras áreas do design para trabalhar jogos de tabuleiro?

Design de produto, design gráfico, design de interiores… cada um tem o seu foco, mas todos eles têm em comum o design. O design tem uma forma de abordar problemas e criar soluções um pouco diferente do convencional, através de vários métodos que são aprendidos na faculdade e na vida profissional. De forma geral, um designer, seja ele de produto, seja de ambientes, seja gráfico, molda a interação entre o usuário e alguma coisa. O designer de produto pode ter como proposta moldar a forma como uma pessoa interage, por exemplo, com uma escada. Para isso, ele deve projetar uma escada que guie o usuário para a interação projetada. O designer gráfico pode ter a intenção de projetar a interação entre um usuário e um e-commerce, por exemplo, buscando mais cliques e mais vendas. Para isso ele deve estruturar o site para que a interação Usuário-Site guie o usuário para a compra.

O Game Designer, assim como os outros designers que existem por aí, também busca projetar interações entre usuário e uma coisa, no caso, um jogo. Ele projeta um ambiente e projeta formas de interação entre usuário(jogador) – Ambiente (jogo/cenário/fase). Pensando nessa semelhança, parece lógico que o designer de jogos queira entender um pouco mais de design, ou da forma de pensar do design, mas essa não é a realidade que vejo por aí. Em muitos casos, designers de jogos não sabem nem por onde começar a entender o “Design” em “Game Design”. O que eu sugiro? Eu sugiro que todos os aspirantes a game designers tentem entender um pouco mais dos métodos de resolução de problemas usados por outras áreas do design. Tentem encontrar utilidade para o que aprenderem nessa busca. Eu estudei design de produto na faculdade. Por casualidades da vida não me formei no curso, mas tudo o que aprendi ali, até hoje, aplico em todo o meu trabalho como Game Designer, Game Developer e Editor. A escolha do próximo jogo a ser publicado, a escolha do tema para o próximo jogo a ser criado, os caminhos que um jogo deve tomar para lá na frente chegar onde a empresa quer que ele chegue… Além disso, o design te ajuda a reconhecer padrões, a encontrar soluções para problemas e a tocar seus projetos para frente.

Para você não começar essa quest do zero e sozinho, eu já vou indicar dois livros:

1 – Das coisas nascem as coisas – Bruno Munari

2 – Value Proposition Design (livro em português, apesar do nome) – Alex Osterwalder, Yves Pigneur, Greg Bernarda e Alan Smith

É isso, espero que eu tenha ajudado e também que você tenha visto algum sentido nisso tudo que escrevi. Espero poder trazer novos pitacos por aqui em breve.

Ah, como uma informação extra, o Sergio Halaban, maior game designer brasileiro, antes de entrar para a área, trabalhou com design de produto por muito tempo.

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